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Aonde está a beleza?

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Em uma festa de aniversário tudo pode acontecer. Não importa que as comemorações sejam faustosas, solenes ou simplesmente íntimas. Contanto que o uísque, a cerveja ou a pinga sejam generosos, acontece muita coisa: amizades novas, discussões interessantes ou estéreis; piadas inocentes, chistosas ou imbecis – qualquer coisa enfim. Acontece até que o homenageado – no caso o aniversariante – contrariando os princípios tradicionais, pode oferecer um presente, ao invés de recebê-lo.


Contanto que a bebida seja generosa – já se disse linhas acima. Insistimos neste particular, porque é aqui que a nossa estória começa.


A festa ia animada, feliz, despreocupada, e ninguém ligava, por exemplo, no que os relógios ali presentes diziam a respeito da noite. Se era cedo ou se era tarde, isto quase não influenciava nem mesmo ao dono da casa – o tal que aniversariava e era, na oportunidade, saudado por amigos, colegas e possíveis amigos.


Pois bem; aconteceu que um dos circunstantes maravilhou-se, extasiou-se mesmo diante daquilo que ele classificou “um dos copos de vidro mais vistosos, sobre quantos copos vistosos, de vidro, seus olhos pousaram um dia!"


Poesia, evidentemente inspirada – talvez – pelo conteúdo do copo. Espontânea, em todo o caso.


A verdade é que o anfitrião impressionou-se com a sensibilidade daquele amante do belo, e ofereceu o objeto visado:

- É seu, meu caro, pode leva-lo, que você me dá grande prazer com isso!


- Alguém, veladamente, quis objetar que "aquilo era demais"; "que o copo fazia parte de um conjunto e custou dinheiro" (o prosaico de sempre); "que nunca se viu coisa semelhante em uma aniversário"... etc.


- Leve-o – foi a ordem definitiva; quanto ao valor material, não se preocupe: do meu ponto de vista, o preço do belo fica por conta da própria beleza. E nada mais bonito, pelo menos para mim, que presentear alguém extasiado diante do belo...


Bem, meus caros, sucedeu que o rapaz levou o copo, a festa acabou e o resto foi ressaca super-ácida. Depois se soube: a excelentíssima consorte do novo proprietário do festejado objeto, e que, por sinal, não compareceu à festinha – por isso mesmo, alheia aos acontecimentos – perguntou, reticente, no dia seguinte:

– Escuta, meu bem, quem bebeu mais – você ou o aniversariante?



*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em 1970.


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