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Agradável surpresa

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Decidiu viver as emoções do dia-do-papai presenteando, condignamente, o marido, em seu próprio nome e dos dois filhos. Antes, avisou ao mais velho que “deixasse esse negócio de viver apregoando que, no dia dos pais, certo mesmo seria eles presentearem os filhos”...


É que o rapazola é metido a espirituoso, a engraçadinho e outras coisas. Entretanto, do seu ponto de vista de mãe, não há graça nenhuma nisto, e sim boa dose de egoísmo no caráter do herdeiro. Repreendeu-o solenemente, além do que prometeu castigo sério, caso ele insistisse naquilo que ela classificou de “essa beleza de piadinha imbecil”. Arrematou o sermão, doutrinando na base de “pai melhor do que o seu não existe”.


Foram às compras.


O filho menor não teve dúvida em escolher um barbeador elétrico para substituir aquele que, no seu entender, já estava fora de moda. “Papai precisa de um aparelho mais moderno, para ficar bacana como os caras que posam em anúncio de revista”. E, visando a dar maior ênfase à sua opinião, empertigou-se todo - queixo para frente, olhar superior - de modo a aparentar pose de adulto veterano no ofício de barbear-se.


Afinal que os presentes foram comprados: o tal aparelho elétrico, mais isto ou mais aquilo. Feitas as contas, a mãe dos rapazes, sorridente e sempre se referindo, eufórica, “à surpresa que o pai de vocês vai ter amanhã”, pediu ao vendedor da loja que caprichasse nas embalagens – papel bonito, vistoso, próprio para presente. Quanto ao valor correspondente, este poderia ser debitado na conta do marido – foi a recomendação final.


Então, aquele que entendia que no dia dos pais, certo mesmo seria eles presentearem os filhos, confirmou sua sentença – desta vez, porém, em voz baixa, como a falar de si para si próprio.

- O que você disse, menino?

- Nada, mamãe; estava pensando na "agradável surpresa" que o velho vai ter...

- Ah, sim...



*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em setembro de1959.

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