A freira
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Não se sabe de onde veio nem para onde vai. Sabe-se apenas o seguinte: aquela mulher escura, quarentona talvez, anuncia aos quatro cantos da cidade que o fim do mundo é coisa próxima e já decidida pelo Senhor. Como foi que ela soube disso, ninguém sabe. Sua função específica: vender uns folhetos impressos que elucidam melhor aquilo que ela classifica, num português de porta de quitanda, como “catástrofes divinas".
Apresenta-se debaixo de um hábito cor de café-com-leite (mais café do que leite) que em tudo pode lembrar a aparência de uma freira sofisticada. O eufemismo funciona aqui para suavizar a vontade que se terá de dizer que ela parece uma religiosa que somente tomasse banho e trocasse roupa de dois em dois anos... se isso fosse possível, bem entendido.
Em tudo, é preciso considerar que esta história de fim de mundo é tema meio desmoralizado, hoje em dia. Depois que os homens de além mar descobriram fórmulas para liquidarem esta batuca, à vista ou em suaves prestações mensais, muita gente acha que quase não faz diferença morrer disso ou daquilo...
Pois bem; a “freira” anda um tanto decepcionada porque “o pessoal aí da cidade não tem medo de nada e não qué iscutá a palavra do Sinhô..." Por isso, segundo consta, vai pregar adiante – lá pelas bandas do sertão.
Comprou passagem na empresa de ônibus que faz a linha do interior, e, na hora da partida, ocupou, solene, sua poltrona numerada. Ao lado, uma senhora conduzia, no colo, sua filha de menos de três anos. Não se sabe se a criança não gostou da cara ou simplesmente do hábito mal cheiroso da “freira”. O fato é que desatou num choro desesperado e ininterrupto, cerda de quinze minutos bem contados.
Pois foi assim que, à saída da cidade, aquela mulher escura (e obscura), quarentona talvez, encontrou finalmente “arguém que tivesse medo de arguma côsa..."
*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 13 de março de 1959.



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