A cartomante não mentiu
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 5 min de leitura
Depois de ler e reler aquele sugestivo anúncio, Elizabeth resolveu conhecer de perto a tal cartomante, que se propunha solucionar qualquer problema financeiro ou sentimental. O endereço, conquanto apontasse um hotel de segunda ordem, ficava a apenas quinze minutos de ônibus, circunstância que vinha facilitar, ainda mais, a resolução da moca em fazer uma consulta.
Para os vinte e oito anos de Elizabeth, a falta de casamento se transformara de simples questão de oportunidade em verdadeiro drama íntimo. Não podia aceitar a ideia de continuar solteira por mais alguns janeiros, mesmo que tivesse que tomar medidas extremas.
Decidiu a jovem que “os fins justificariam os meios”, teoria que ela ouvia seu pai repetir diariamente, como definição da nova linha política que o velho vinha difundindo entusiasticamente, há algum tempo. Se o pai era realmente o progressista que nunca se cansava de apregoar aos quatro ventos aquela “filosofia vale tudo”, nada melhor – pensou Elizabeth – do que assimilar e executar os métodos paternos. Portanto, o primeiro passo seria visitar madame Nadja – a do anúncio – para quem, segundo estava impresso, o futuro não tinha mistério nem dificuldades.
Durante o quarto de hora que a levou até o hotelzinho barato, Elizabeth pensou tanto nas suas possibilidades como candidata potencial a um próximo casamento, que chegou ao ponto de vislumbrar o tipo e feições do seu príncipe encantado: alto, forte, bonito e de um alourado quase divino. "Há-de-ser, há-de-ser!" – o coração da jovem marcava o ritmo de uma prece fervorosa.
***
- Então, minha querida, você deseja casar-se, sem mais demora, não é assim? Vejamos o que dizem as cartas – Madame Nadja assumiu aquela atitude característica de quem pode decidir, até mesmo, os destinos de uma nação, e foi arrumando as figuras do baralho, numa promiscuidade de reis, rainhas e ases dos quatro naipes.
- É verdade que você não vai me pagar muito, mas necessitará de algum trabalho e muita obstinação para realizar seu ideal. Vejo que, nesta cidade, você não tem grandes oportunidades; por isso, é melhor mudar-se de terra. Este dois de copas – por exemplo – está aconselhando que você vá para a capital do país. E quer saber de uma coisa maravilhosa? (a “consulta” atingia o seu clímax) – O nome dele é Alfredo!
A reação de Elizabeth não poderia ser outra: remexeu-se na poltrona, torceu nervosamente as mãos, engoliu seco, mas, quando quis balbuciar qualquer coisa, a cartomante foi categórica:
- Espera, que ainda tem mais. Quer ver? Se somarmos os valores dessas cinco cartas que aparecem agora, teremos 33. Sabe o que representam esses algarismos?
Elizabeth assume um ar patético, quase idiota, e balança a cabeça, num aceno que tanto podia significar não como talvez. E madame Nadja, mais importante do que nunca, diz:
- Apenas o numero da casa em que reside seu futuro noivo. Infelizmente, o nome da rua não está muito claro. Vejo somente as iniciais BL, mas não fique triste que você não terá muita dificuldade em descobrir a tal rua. Afinal de contas, a cidade não é nenhuma Londres ou Nova Iorque que, pelos seus tamanhos, tornariam verdadeiro martírio uma busca dessa natureza.
Elizabeth, emocionadíssima, pagou os 300 cruzeiros do “serviço”, fazendo questão, entretanto, de acrescentar mais duzentos, a título de gratificação, numa prodigalidade de quem não cabe em si de contentamento.
Desse no que desse, iria à procura do número 33 da rua B.L., do Alfredo, de sua felicidade... Enfim, estava resolvida.
Agora, era necessário obter o consentimento do pai, mas isso não seria muito difícil, desde que soubesse pedir. Quanto ao dinheiro para a viagem, suas economias, no Banco, apesar de pequenas, cobririam uns vinte dias de permanência na Capital Federal.
Na realidade, o velho deixou-se vencer pelos fortes argumentos de “nunca viajei, preciso conhecer terras”, impondo apenas estas condições: a filha hospedar-se-ia em casa de determinado parente e não se demoraria mais de um mês. Foi assim que o avião desembarcou Elizabeth e suas esperanças, no aeroporto central da grande cidade.
***
Logo ao segundo dia, a moça conseguiu informação de que a melhor maneira de conhecer, em pouco tempo, os principais centros e logradouros da metrópole seria adquirir um catálogo especializado – à venda em qualquer livraria – independentemente das clássicas voltinhas nos transportes coletivos.
Elizabeth comprou o “indicador”, com a mesma ansiedade de quem compra um bilhete de loteria, a correr dentro de meia hora. Folheando-o até o ponto onde começavam as ruas da letra B, experimentou sua primeira emoção forte. Leu trêmula: rua Barão de Lima – bairro Jacareaçú – 50 minutos de ônibus do centro. E na relação de casas: 25, 30, 35... Decepção!
Procura que procura, logo abaixo: rua Bento Lins – bairro Alegre – 20 minutos de lotação, casas 21, 39, 33!!! O coração da moça Elizabeth pulsou aceleradamente. O 33 – bem pretinho – ali estava, fazendo bonito contraste com a brancura impecável do papel. A cartomante acertara em cheio! Era uma pena, mesmo, que ela estivesse tão longe, para ganhar mais algumas centenas de cruzeiros – lamentou-se, a agora esfuziante noiva em perspectiva.
A placa “Bento Lins” brilhou ao sol daquela linda manhã de domingo, e as casas começaram a desfilar para Elizabeth: 15, 19, 21, 29, 33!
- Mas isto é mansão que só se vê em filme de cinema americano, meu Deus!
Realmente, surgia majestosa e imponente, qualquer coisa notável em matéria de arquitetura. Ricos, senão milionários – deduziu Elizabeth, a candidata eleita por uma cartomante ao cargo de esposa provável do Alfredo que, fatalmente, havia de morar naquele casarão maravilhoso...
Apertar o botão da campainha foi mais difícil para Elizabeth (seu coração pulsava cada vez mais forte) do que encontrar uma desculpa, inventar um pretexto... Contanto que fosse atendida à porta.
- Diga, senhorita – a voz da criada de avental e cabelo mise-en-plis despertou a moça.
- Eu... eu desejo falar com a dona da casa sobre assunto importante.
- Infelizmente ela não pode atendê-la, porque se encontra acamada, em absoluto repouso, depois de um parto mal sucedido.
- Que pena, não é? Mas, diga-me, por favor, aqui mora algum Alfredo? (Retirar-se dali sem descobrir o futuro noivo era muito para Elizabeth, nessa altura mais ansiosa do que nunca).
- Alfredo? Não, senhorita, nenhum...
A moça estremeceu da cabeça aos pés (a cartomante foi categórica, o nome dele era Alfredo!), mas encontrou forças para insistir:
- Não é possível! Garantiram-se que mora sim...
A doméstica levantou bruscamente o braço direito e bateu de leve na testa com a ponta dos dedos, assim como quem chega a uma conclusão definitiva:
- É verdade, senhorita, eu já havia me esquecido do filhinho de madame, o tal que lhe deixou de cama. Se não tivesse nascido morto, seu nome seria Alfredo.
A moça Elizabeth recostou-se à porta, para melhor poder pensar na província distante, nos seus preciosos quinhentos cruzeiros, nos “meios” e nos “fins”...Enquanto a criadinha, dando de ombros, bateu o trinco.

*Publicado na coluna de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 1958.



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